sexta-feira, 12 de maio de 2017

Seu nome

Cidade cheia de lugares
Lugares inundados de memórias
Memórias inundadas de saudades
Saudades inundadas com seu nome

Seu nome inundando a cidade...

sábado, 28 de janeiro de 2017

A existência de Karlos

               A noite estava iluminada pelas estrelas e a luz da lua cheia, que estava tão linda quanto um soneto. Karlos saiu de casa para fumar um careta e acabou se deparando com a beleza da lua, sua grandiosidade e a magnificência que é ela estar lá em cima, flutuando no espaço, ligada à Terra apenas pela gravidade. À medida que seu cigarro ia diminuindo, os pensamentos começavam a invadir (como se invade um lugar onde já se está dentro?) a mente do jovem rapaz.
               Será que algum dia ele conseguiria compreender a ação da lua cheia sobre ele? Ou se os humanos iriam descobrir a razão pela qual estão no universo? Karlos já havia percebido que sob a lua cheia suas lombras eram sempre mais complexas; seus pensamentos se voltavam para questões existenciais, diferente dos pensamentos que ele tinha no dia a dia. Ele se pergunta se há realmente uma razão para estar vivo, afinal, é preciso uma razão para isso? Estamos vivos porque nascemos, e isso ele pensa ser o bastante. Viemos de ancestrais comuns que já viviam, por qual motivo, então, isso não é o bastante?
               Nesse momento ele se pegou recitando o trecho de uma canção antiga de uma banda gaúcha, o qual diz “estamos vivos, sem motivos, que motivos temos pra estar”? E ele se faz a mesma pergunta: “que motivos temos, realmente”? Ou talvez exista um: viver. Viver pode ser o motivo para estar vivo e não alguma missão ou fazer parte de um todo que não pode ser compreendido. Talvez não exista um plano mestre ao qual cada um de nós tem que descobrir nosso papel e depois realiza-lo.
               Olhando a lua, Karlos sorriu ao perceber que não se preocuparia mais com questionamentos sobre a sua existência, ele iria apenas existir.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mais uma de fim de ano

            O tempo é um negócio engraçado, né? O ano pode demorar um ano para passar, mas quando chega o último mês e a gente olha pra trás, pensa: “menino, o ano passou num pulo”. E nesse meio tempo, que mais parece ter passado em um minuto, muito acontece e muita gente nova entra na sua vida, assim, de uma hora pra outra, e parece que, em dois meses, você já conhece aquela pessoa há anos.
            E em pouco tempo você vai vendo quais são aqueles que ficarão por anos e anos com você, seja fisicamente ou só na memória, ou até mesmo na lista de contatos do Whatsapp, uma boa ferramenta para manter contato com quem está distante. Entrar para uma faculdade é sinônimo de conhecer pessoas novas, fazer amigos novos e se enturmar com eles. Conhecer seus problemas, ajudar e ser ajudado, morrer de raiva e desespero na hora dos trabalhos em equipe, mas também de rir e adquirir conhecimento. E é engraçado como um semestre inteiro parece que vai demorar um século, mas quando se chega ao fim, não passou nem trinta segundos.

Não que os amigos de antes passem a ser esquecidos os espaços deixados preenchidos pelos novos, isso nunca. Mas, ao invés disso, abre-se um espaço novo, onde cabem todos confortavelmente no peito, na memória, e para alguns, nas orações e listas de melhores. Particularmente eu não acredito em “melhor amigo”, não vejo como posso colocar um amigo acima dos outros, nem ao menos criar uma tabela onde alguns ficam em cima e outros embaixo. Ou é amigo ou é colega ou é conhecido, e todos dentro de cada rótulo (porque o ser humano ama rotular tudo), ficam juntos num mesmo lugar. O ano está chegando ao fim, mas as novas amizades apenas começaram, e as antigas ganham mais força ainda. E também, mais um ano está chegando pra ser vivido a cada dia com todos, e a cada momento, mas não como se fosse o último, porque, na verdade, todos os momentos serão sempre os primeiros.

domingo, 20 de novembro de 2016

Ser otimista

Sempre me disseram
Para ser mais otimista
"Mas por que?", pergunto eu
E me respondem que é óbvio
Então como não vejo isso?
Se é tão óbvio assim
Por que ninguém sabe responder?

Se a violência fascina tanto
Até mais que a bondade
Se preferem xingar, bater
Perseguir, expulsar
Se preferem fazer piada
E desmerecer uma causa
A estudar, pesquisar, respeitar
E manter um diálogo
Como posso ser otimista?

Se a cada ano que passa
O ódio entre duas cores
Divide cada vez mais o povo
Se um ato de respeito
Se um ato de bondade
É taxado de "ato de comunista"
E as pessoas não se dispõem
A fazer uma pequena pesquisa
E preferem manter com força
Um discurso cheio de ódio
Como pode haver otimismo?

Desculpem dizer, mas esse novo ano
Vai nascer mais desgraçado
Que a morte do atual

domingo, 6 de novembro de 2016

A chuva cai

A chuva cai barulhenta nas telhas
E minha alma a solidão devora
O que fazer se, aqui nesse quarto
Ela não sente o mesmo de outrora?

As paredes se aproximam cada vez mais
E eu sinto meu fôlego esvaecer
A solidão me come com grandes mordidas
De dentes grandes a me remoer

E enquanto isso a chuva cai forte
Mas a chuva não molha minh'alma
E não lava esse profundo corte

Mas a chuva leva algo meu, oh sim!
Ela leva as lágrimas dos meus olhos
Que formam cachoeiras sem fim

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

As vogais

Imagine uma sociedade onde todas as letras são As e têm os mesmos costumes e são todos iguais, mudando apenas o tamanho entre as crianças e os adultos. Todas estão acostumadas a realizar as mesmas ações todos os dias, a vida segue igual, sem nada de diferente. Mas então um dia aparece uma letra estranha a essa sociedade. Estranha tanto em forma como em comportamento, como a letra E, e passa a caminhar pela cidade. Como reagiriam as letras As?
Decerto as letras iguais se assustariam perante a chegada dessa nova e diferente vogal. Observariam primeiramente de longe os costumes dela e não se atreveriam a interagir, até que uma das instituições da cidade, como igreja ou justiça buscasse o diálogo e apresentasse a essa nova vogal sua política. Percebendo que essa letra tem modos e ideologia diferentes do povo da cidade, e considerados mais primitivos, tais instituições tentariam transformar essa nova letra em um velho A, para que possa se adequar às normas e à vida daquela sociedade.
Ao constatarem que, mesmo com as tentativas de mudança a nova letra não agia como A, por, e não somente por isso, ser uma letra E, as outras letras A procurariam outro modo de transformar aquela vogal. Usariam de fórmulas mais pesadas e que não respeitam aos direitos daquela letra ser como ela é e forçando-a a deixar de ser E. Assim, dobrariam a perna vertical da nova letra e a deitariam, modificando também a orientação do traço vertical do meio, deixando a letra mais parecida com um A o possível: comemorariam a evolução daquela nova letra, e pior, o próprio E (agora A deformado), comemoraria sua mudança e tentaria se encaixar.
Mesmo depois de um tempo fazendo coisas que as letras A faziam, o antigo E continuaria refletindo sua natureza inata: suas características biológicas não deixariam de existir só porque sua aparência foi mudada e, assim sendo, não tardaria até que sua forma e reações voltassem a ser de E. E se algo ruim acontecesse muitos logo apontariam o dedo para ele, para o diferente, pois a culpa está sempre no outro, no novo, naquele que não é dali. A nova letra perderia a confiança das letras A originais e aos poucos seria abandonado, sentindo-se um fracassado, porque quando todos apontam que o erro é você, nada mais se pode fazer. Ele sumiria.
Contanto, se nessa fuga ele encontrasse uma sociedade de letras diferentes entre si, e também dele mesmo (agora um E com traços de A), que em vez de tentar transforma-lo, decidissem acolhe-lo e trocar ideias, ensinar e aprender com ele, quão grande seria a desconfiança e também alegria dele?
Ele ficaria desconfiado pela experiência que teve com a sociedade anterior, a qual tentou força-lo a ser como eles eram e a fazer o que faziam. Isso marcaria negativamente a ideia de sociedade para o E. Mas, se essa nova sociedade de letras diferentes fosse aos poucos conhecendo e integrando essa letra, de forma que aceitasse suas diferenças, a socialização seria agradável e suave, e o E conseguiria se encaixar nela sem nenhum problema, pois além de aprender com os outros, também poderia ensinar, visto que todos os outros se disporiam a ouvir.

Agora olhe ao seu redor: a sociedade em que você se encontra é como a dos As ou como a das vogais diversas? E olhe também para si: você age da primeira ou da segunda forma? Se você impondo seus costumes, crenças, cultura, etc. sua atitude é tão ruim quanto à da primeira sociedade. As pessoas são diferentes e é preciso aceita-las e respeita-las como elas são. Assim como fizeram as vogais O, I e U com a chegada da letra E.

sábado, 10 de setembro de 2016

Seguindo luzes

                Hoje eu acordei de um dos sonhos mais estranhos que eu já tive em toda a minha vida. Foi tão estranho que ainda estou um pouco confuso, pois há alguns dias, meu professor de Filosofia leu com a gente um texto do livro “O Mundo de Sofia”, que contém basicamente o meu sonho, mas como um exercício de reflexão. Contarei aqui este sonho, mas antes preciso tomar um café. Minha cabeça parece que foi revirada, assim como meus olhos e ainda sinto sono. Pronto, esse café vai me ajudar, agora posso contar a quem quer que leia o meu mais estranho e fantástico sonho.
                No começo tudo estava escuro e eu me levantei da cama, fiquei sentado. Então me perguntei “o que eu faço acordado a essa hora da noite?” e o meu abajur acendeu sozinho. Meu coração comeu a palpitar mais forte, certo medo me surgia e, ao mesmo tempo, senti uma excitação, uma sensação de espanto bom, como uma criança ao ver um cachorro pela primeira vez. Em vez de me levantar e ir apagar o abajur para voltar a dormir, continuei sentado na minha cama e fiz outro questionamento: “como o abajur acendeu se não há mais ninguém em casa e eu não o acendi?” então, nesse momento, a luz do corredor se acendeu.
                Levantei-me da cama e fui até o corredor ver se havia alguém ali, ainda com medo, mas também com aquela excitação de algo novo, como uma corrente elétrica passando pelo corpo. Segui caminhando até o fim do corredor, onde havia a passagem para o quarto de hóspedes, e um grande espelho me esperava com uma imagem minha refletida. “O que eu estou fazendo ali se nem na frente do espelho estou?” E mais uma luz se acendeu, mas não era nenhuma luz da minha casa, era um tipo diferente de luz, uma que não consegui entender e, por isso, nem vou tentar explicar. Mas era forte e quase me cegou. Quando consegui abrir os olhos, aproximei-me do espelho onde eu estava e vi algo que me deixou extasiado.
                Poderia ter sido um extraterrestre, ou um monstro escuro e frio, mas o que estava no espelho era mesmo uma versão de mim, mas diferente: emitia uma forte luz branca e tinha a cabeça maior, com cabelos brancos e barba. Fiquei admirando a minha própria imagem por alguns minutos, perguntando-me como aquilo era possível, sendo que eu não emitia nenhum tipo de luz, nem tinha barba ou cabelos brancos. “O que está acontecendo? Como aquele posso ser eu?” E quanto mais perguntas eu fazia, mais luzes eram emitidas pelo meu reflexo e dentro de casa mais luzes se acendiam. O meu reflexo abriu os olhos e os fixou em mim e, sem dizer uma palavra, falou em minha cabeça: “se quiser ter as respostas de todas as perguntas, venha até mim, ou, melhor dizendo, visite-se.” E estendeu a mão: “em você poderá encontrar todas as respostas, mas apenas se se atrever a perguntar, apenas se não deixar morrer o dom da fascinação, a sua natureza questionadora”. Com a mão estendida toquei o espelho e me emocionei ao sentir que o atravessava como se fosse gelatina.
Mas justamente nesse momento eu despertei na cama, os olhos cheios de lágrimas. Fiquei triste por ter sido apenas um sonho, gostaria que tivesse sido real. Mas às vezes paro um pouco e penso: será que foi? Ou será que foi apenas fruto dessa minha imaginação fantástica? Não podia ser real, não tem como ser! Se bem que, o que podemos dizer com certeza sobre a realidade? O que é verdade? Como poderíamos distinguir um sonho do que é real, se o sonho pode ser tão real quanto o que chamamos de realidade? Nesse momento eu parei de falar e minha mente se abriu a diversas possibilidades. Sorri.