sábado, 7 de dezembro de 2013

Expressão da garotinha

O que será que tinha aquela garotinha?
O que será que ela sentia? 
Seu rosto expressivo na fotografia
Parecia ter de dor uma pontinha.

Seus olhos baixos, sem ter cor
Angustiaram meu olhar
Seu rosto triste e confessor
Quase me fez chorar.

Qual era a dor que a afligia
E que causava nesta foto
Expressão em demasia?

E hoje em dia, quem diria
Que um momento, assim, tão triste
Se tornaria poesia?



*Não precisa de imagem. A foto já foi descrita.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Diálogo ao ouvido.


- Você tem olhos de ressaca.
- Tenho, é?
- Sim. Olhos que me consomem como as ondas
em tubo consomem o surfista descuidado.
É só eu me descuidar um pouco e pronto: já fui consumida.

- Queria eu me afogar
nas ondas desse teu olhar...

sábado, 23 de novembro de 2013

Penitência

Parte III

  O céu está fechado. Parece que as nuvens vão cair por cima de todos ali na rua. Todos aqueles que me estão observando com olhares de repulsa, de vergonha. Os pais cobrem os olhos de seus filhos para que não vejam o farrapo de homem que acabou de sair pela porta. Não entendi aquele ato até que olhei para baixo e me vi despido de minhas roupas, de meus pelos e pior que tudo isso: despido de minha dignidade. 
  Algumas mulheres me miravam com olhos de desejo, enquanto outras cobriam a boca, pasmas comigo e com a situação em que me apresento. Ouço gargalhadas também. Essas vêm de um grupo de homens sentados em um círculo na calçada, jogando algum jogo com cartas. Caminho com a minha cabeça ainda erguida, com meus olhos agora postos no que vem adiante, na rua coberta pelos meus pecados. 
  Sangue escorre pelos meus dedos, mas não lembro de ter me ferido ou carregado alguém hemorrágico. Apenas sinto o calor descendo em vermelho e pingando no asfalto, criando um fino caminho por onde eu passo. Não tenho mais nenhum motivo para sentir vaidade. Toda a minha foi perdida, ferida pela minha própria vergonha, pelos erros que cometi, por anos que fiz o que é certo, o que é bom, apenas para que vissem que era eu quem fazia. EU! Todo o orgulho do eu, do pensar somente em sair bem, em ser adorado, tudo isso agora não faz mais sentido para mim. De que vale a hipocrisia? De que vale fazer o bem só para receber admiração e visualização em troca? De que vale se não é feito por afeto, bondade, amor, compaixão? 
  Minha reflexão foi interrompida por um tropeço meu. 
  Caio de joelhos e penso se não seria melhor desistir. Afinal, do que estou mesmo indo atrás? Não tenho certeza nem se ao final de todo esse sofrimento conseguirei de volta o que perdi antes de começar. Ninguém tem certeza do próprio futuro. Ninguém o saberá dizer, nem mostrar. Então por que me faço passar por isso? O que aconteceria se eu simplesmente resolvesse deixar o passado onde ele está, esquecer que o futuro está chegando e me concentrar no presente vivido? Ou não vivido, se tu, leitor, quiseres considerar que eu não vivo o meu presente. Talvez não o viva mesmo.
  Sinto um calor vindo de cima. Não. Não é nenhum deus, caso seja isso que vocês pensaram. É o sol. Um raio que atravessou a densidade das nuvens e agora chega até mim. É a luz do questionamento, da dúvida, da não aceitação do que eu faço comigo mesmo. E ela está abrindo mais espaço entre as nuvens, entre o peso daquele céu que agora não está mais para cair, mas sim, que se afasta.
  Olho ao redor e não encontro mais aquele olhar de vergonha na cara das mulheres, ou o desejo em outras. As crianças não têm mais os olhos cobertos pelas mãos trabalhadoras de seus pais. Eu não estava mais sem roupa ou sem pelos. O sangue não descia mais das minhas mãos e meus olhos sorriam com toda a vida que encontrava a sua frente. 
  Durante tanto tempo eu senti pena de mim mesmo. Todos os dias atribuía uma nova culpa à minha testa, como são atribuídos, no Monte Purgatório de Dante, sete letras 'P' nos pecadores ao iniciarem sua subida em expiação para depois, quando não tiver mais nenhum 'P' escrito na testa, poder enfim entrar no Paraíso. Que me esqueci de viver, de que não vale a pena martelar na cabeça culpas e mais culpas. Isso não faz bem a nenhuma pessoa. 
  Acredito que cheguei ao fim da minha caminhada. O sol agora brilha, os pássaros estão cantando. Vivo feliz, sem mais culpa, sem mais arrependimentos. Enxerguei minha vitória na luz da interrogação.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

(des)mascarando poeticamente



As máscaras...
São delas tantas cores e formatos.
São de plástico, borracha, papelão
de ouro puro e carne e osso...

Máscaras de carnaval!

Elas disfarçam a tristeza
protegem as alegrias
encaram a falsidade
como a um espelho...

Oh, tu não vês?
As máscaras são como as pessoas.

Não existem pessoas mascaradas
Existem as pessoas.

pessoas|saracsàm
                 


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Narrativa de um abraço



   João sofria com o calor daquela manhã de terça-feira enquanto caminhava pela calçada. Seus olhos doíam um pouco pelo excesso da claridade mesmo ele de óculos. Um pouco a sua frente viu alguém se aproximando e logo reconheceu Sabina.
   Sorriram e depois seus braços envolveram um ao outro, num abraço amigável. Ali ficaram por algum tempo, sob o sol forte posicionado num céu sem nuvens. Ventava, mas isso não amenizava o calor que fazia.
   E o abraço continuava. Narrarei um pouco dele a seguir.
   Era um daqueles abraços firmes, onde os donos dos braços pareciam sentir segurança quando envolvidos tão apertadamente contra o outro. Era um abraço tão bom que até os corações amigos pareciam se abraçar.
   Depois que se soltaram conversaram alguns minutos sobre a vida de cada um. Riram também um bocado.
   Talvez por terem sentido falta ou talvez por já estarem de despedida, abraçaram-se mais uma vez. E como dessa vez foi um enlaço diferente do primeiro, narrarei-o também.
   Ele a abraçou na cintura, levando seu rosto acima da face dela, tocando com o queixo os cabelos escuros. Ela por sua vez o abraçou no meio da coluna, talvez um pouco mais acima disso. Deixou seu rosto junto do peito do amigo. Dessa vez, como disse, não foi o mesmo abraço narrado anteriormente. Esse era mais afetivo, mais efetivo, com algo a mais que o outro. Havia agora pele acariciando cabelos e um rosto que sorria numa camisa clara.
    Despediram-se e seguiram cada um pro seu lado e o calor agora não incomodava tanto. Incrível mesmo o que faz um bom abraço.

domingo, 3 de novembro de 2013

Do que é atemporal


 Olha, o passado já foi, ele não nos cabe mais... 
O futuro ainda vem e não sabemos pr'onde vai.

O que temos é o presente, no qual temos que viver nossas vidas
se     -      pa             -             ra     -     dos

Mesmo que seja triste
sendo triste como é
    
                                                                               

                                                                                          z a r
                                                                                      c r u
                                                                        P o      s e    
                                                                             d e
                                                                     z e r       s e r
                                                                 p r a             q u e
                                                               o                           e l a s
                                                                                              te
                                                                                                n h a m
                                                                               

A   l
g   u
m  d
 i   a
 n   u
 m   a
 a   v
 e   n
  i    d
 a    q
 u    a
 l    q
u   e   r

sábado, 19 de outubro de 2013

Penitência

Parte II

  Quando entrei me peguei atravessando um longo corredor iluminado por alguns lustres que piscavam entre luz forte e fraca. Eu realmente merecia aquilo? Estava começando a me irritar com aquilo, por que a luz não ficava ou forte ou fraca? Tinha que ficar piscando? Mas então percebi que tudo ali tentava me irritar, tentava me tirar do caminho e me levar de volta ao começo, como eu sabia que poderia.
  Respirei e fui aos poucos recuperando a paciência, mas ainda vez ou outra pensava se a porta ao lado teria sido a melhor escolha, ou quem sabe a da esquerda? Balancei a cabeça e me centrei no caminho. As paredes agora exibiam flashes de minhas melhores memórias com ela. Ai! Se tem algo que pode derrubar qualquer cara apaixonado, mais que cacos de vidro ou navalhas num vendaval, são as memórias do amor que nutrimos pelo tempo que passamos juntos!
  Quis me ajoelhar e chorar ali naquele chão liso, confesso que quase desisti. Mas sabia que o único jeito de conseguir o perdão seria enfrentando todo aquele tormento na minha cabeça, todo aquele pequeno Inferno pelo qual estava passando. Precisava terminar aquela expiação, pois nenhuma dor física é maior que a se causa ao coração de outra pessoa.
  Atravessei o corredor com os olhos úmidos e o peito apertado. Engraçado, eu que sempre acreditei que o coração não sentia isso agora estava sofrendo com uma dor no peito: saudade! Vontade louca de correr de volta pros braços dela, de olhar bem fundo naqueles olhos castanhos e vê-los sorrindo de volta para mim. Dividir aquela felicidade que só existia quando estava com ela. Talvez se tivesse entrado na outra porta isso não acontecesse...
  A extensão do cômodo parecia não acabar, mesmo eu tendo caminhado já por algum tempo. Não havia portas, nem janelas, nenhuma fresta sequer para entrar um ar. Ao invés disso, tubulações soltavam um ar frio por cima, que só não me congelava por pouco. Será que existia ar quente depois das outras portas? Será que existia alguma janela, alguma cama onde eu pudesse descansar? Não! Não é por isso que estou aqui, vagando silencioso nessa interminável caminhada. Aqui tenho que aprender a ser paciente, decidido, deixar meu orgulho de lado e não pensar só no que eu quero, ou no que eu tenho. Chega de tanto ‘eu’!
  Em um trecho desse corredor sem fim começo a encontrar espelhos e ao me olhar neles vi a minha face e confesso que me deliciei ao me ver. Um homem de olhos escuros, com um nariz levantado e um sorriso orgulhoso na boca cheia de dentes brancos. O cabelo impecável e a roupa que parecia brilhar. Então passei ao próximo espelho e ao que vi preferi o outro, aquilo era realmente eu?

Eis uma breve descrição do segundo espelho:
‘Os olhos eram negros, a boca quase não tinha dentes.
Embora por fora parecesse o mesmo, o espelho mostrava um interior
desgastado, vazio de compaixão e cheio de rancor.
Era mais frio que todo o ar congelante do local.
E o coração era puro gelo.

  Ao que parece os espelhos mostram o que somos e o que pensamos ser e agora eu vi realmente o que sou, e consequentemente o quanto preciso concluir essa penitência. Eu preciso mudar rapidamente.
  Os espelhos foram desaparecendo e voltaram os flashes, mas agora não dos momentos felizes que tive com ela e sim das vezes que a feri com palavras duras e atos rudes. Era esse o homem do primeiro espelho, que escondia sob uma máscara sorridente a sua face orgulhosa e feia. Caio de joelhos. Uma recaída logo agora. O sangue escorre pelas feridas abertas. Por que não deito logo aqui? Por que não desisto e deito e durmo até não mais sentir o ar?

  Porque eu não posso! Porque tenho que continuar! Recaídas sempre existem. Talvez façam parte da penitência. Passe por cima delas. Volte ao topo, mesmo demorando. Há agora uma luz ao final desse corredor, uma linha fina e clara de luz branca: uma porta entreaberta! Finalmente enxergo a saída desse longo caminho estreito. Aumento as passadas até chegar na porta, mas logo entristeço ao ver o que o que há atrás dela... 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Penitência

Parte I

  Nos primeiros dias eu atravessei a rua sobre cacos de vidros. Era a primeira das provas que eu teria que passar, caminhar apoiado apenas na instabilidade das minhas pernas, até aprender a ficar de pé sem balançar. Sentia meu sangue escorrer entre os dedos e molhar todo o caminho percorrido de vermelho.
  Mas nada disso poderia ser comparado ao que eu fiz com um coração. O seu. Era apenas o começo da minha expiação, da minha busca pelo perdão não divino, aquele perdão que vale mais a mim que qualquer outro: o perdão de uma mulher. 
  Sob o céu que derramava gotas ferventes tive que continuar caminhando. Quis correr algumas vezes, esconder-me daqueles pingos que caíam quentes sobre mim. Eram delas lágrimas. Os meus pés não sentiam mais os cacos, embora eles ainda estivessem pela estrada. Foi como atravessar as ruas de um Inferno menor. Não aquele descrito por Dante, nem nada parecido. Nesse não havia almas sofrendo por seus pecados, era apenas eu: um único corpo em movimento. 
  De repente uma ventania se abate sobre mim e suas fortes rajadas me tiram sangue. Não vou mais aguentar, penso, mas então levanto meus olhos e enxergo ao longe um brilho intenso e continuo a caminhar. O que sobrou do amor, abaixo de mim, dilacera meus pés, enquanto o sopro de pequenas navalhas faz formar um rio de sangue em meus braços. 
  Pergunto-me por qual razão estou ali, andando na rua, quando nas calçadas estendem-se camas e portas estão abertas, convidando-me a entrar, a deitar. Mas então eu lembro o motivo: "eu prometi a ela. Prometi que seria outra pessoa, que deixaria de lado meu orgulho, o egoísmo, que não agiria por impulso." E ali estava eu, sentindo o antigo impulso me tentando, querendo que eu caísse, que não resistisse. E gritava alto dentro da minha cabeça: "a única maneira de livrar-se de uma tentação é ceder a ela..."
  Senti um pouco de medo; quase caí. Concentrei-me firme no caminho a minha frente. Havia de renunciar aos desejos mundanos caso quisesse realmente continuar minha caminhada, minha transição e um novo ser. Quanto mais eu andava mais o cansaço me pegava, era como se não tivesse fim aquilo. Seria esse o teste que me mostrava que a paciência é uma virtude que ainda devo almejar? 
  Os cacos de vidro agora já não preenchiam todo o caminho. Era um sinal, mas de quê? Para me alertar de que é preciso caminhar com cuidado, mas mais que isso: que preciso tomar cuidado com as atitudes que tomo. Com as palavras que falo e com a estrada que devo seguir. Mais a frente me aparecem três portas, todas da mesma cor. Ouço uma voz que me manda escolher uma porta e que depois de escolher, eu devo entrar e seguir o caminho escolhido sem olhar para trás.
  Escolhi a porta da direita, entrei e a voz não saía da minha mente.

sábado, 12 de outubro de 2013

Carpe vitam



Nossas vidas são como vários enredos incluídos numa história maior.
Se cada um escrevesse sobre suas vidas, teríamos um eterno romance.
Uma comédia, uma tragédia, um musical. Um recital poético! Onde rimos, choramos, amamos e odiamos.
Na qual faríamos tudo parecer não acabar até que chegassem os fins.
De onde surgiriam outros dois novos, para compensar a perda.
Histórias que se cruzariam em alguma esquina cheia de carros apressados e homens sem tempo para o amor.
Ah, esse tal que é atemporal, o amor. Nas nossas histórias está sempre presente, e a cada ato, a cada capítulo dessa eterna comédia, um trecho desse amor abrirá caminho aos que vivem fora do tempo lógico: os loucos!
Imagina: um sem fim de amantes deles mesmos, amadores do e no "carpe diem"*. Dos que ainda procuram formas de amar de qualquer forma...
Sim, seria esse o enredo principal de todos os enredos que são as nossas vidas.
O infinito de cada sentimento.



*carpe diem: aproveite o dia em latim.


fonte da imagem: http://silviarita.wordpress.com/2010/04/09/aproveite/ 

sábado, 5 de outubro de 2013

Uma bela vista

            O sol já tinha nascido quando uma mulher avistou alguém em cima de um prédio, sem camisa, olhando para longe. Não viu nada de estranho no início: “acordou cedo e quis olhar a cidade de cima” ela pensou. Logo outras pessoas também notaram o homem – assumiram que era um homem pelo peitoral – que não se movia lá em cima.
            Com um tempo a polícia chegou e com ela alguns repórteres e muitos outros trabalhadores pararam para acompanhar a situação que se passava. Boatos de que o homem planejava se matar foram chegando cada vez mais alto aos ouvidos de uma repórter, que feliz por ter conseguido chegar primeiro ao local, logo soltou para a equipe na redação que o homem era cheio de problemas pessoais, ou algo do tipo, fato que foi confirmado por “amigos” da família, pessoas que por estarem em frente a uma câmera assumiram esta responsabilidade.
            De repente uma mulher apareceu e todos, pela cara que fizeram, assumiram que era a esposa dele. Talvez fosse pedir perdão, ou então perdoar. Iria dizer a ele que os dois poderiam viver ainda muito tempo juntos, que ele não precisava fazer nada daquilo. E que tudo ficaria bem depois e todos poderiam voltar para suas casas. Mas não. A mulher que apareceu vestida acabou ficando ao lado dele, olhando pro mesmo ponto perdido, encostada no parapeito.
            Então a tensão recomeçou e agora a história ganhava novo personagem – e uma nova versão: “casal apaixonado decide viver unido para a vida eterna”. Agora, a história que era um drama egoísta passa a ser um romance romântico, daqueles que os sentimentais sempre choram no final. Vendo que o único jeito de fazê-los descer era subindo, um dos policiais tomou a dianteira e entrou no prédio.
            Pouco tempo depois estavam os três lá em cima, na beira da cobertura, observando o céu, aquela beleza azul para onde os três supostamente planejavam ir. Sim, nem mesmo com o oficial subindo para convencê-los, eles não desistiram da ideia. Pelo contrário: agora o policial também tinha decidido cometer o suposto suicídio. Lá embaixo todos ficavam mais apreensivos a cada minuto que se passava.
            Cada vez mais histórias eram criadas. Uns diziam que o homem era um psicólogo psicopata, que convencia seus clientes de que a vida não valia à pena. Que a felicidade seria encontrada apenas na morte, no mergulho para o eterno nada. Ou tudo. Quem sabe? Então um movimento que chamou todos os olhares para cima de novo: o tenente Rocha colocou um pé entre os apoios do parapeito e começou a acenar com as mãos. Ninguém sabia o que ele queria decerto, aceitaram que era um pedido para se afastarem. Eles iam pular e ele seria o primeiro.
            Todos esperavam que o mais novo pretendente a suicida saltasse de braços abertos para a liberdade. Como um pássaro que voa entre as correntes de vento, mas nesse caso não existiam asas. A gravidade o puxaria de vez para sua morte. E quando todos, tristes e ansiosos com aquilo, abriram espaço no meio da rua, viram que o policial tinha descido do parapeito e que o homem e a mulher tinham sumido de vista. O que será que aconteceu? Desistiram?
            Pela porta saía um homem de uniforme e óculos escuro, sorrindo para todos. Quando abordado pelos repórteres, ele respondeu:
            – Ninguém pretendia cometer suicídio, não. Estávamos todos enganados, ainda bem.
            – Mas e o que foi aquilo tudo lá em cima? Todos já tinham aceitado a ideia de que o senhor seria o primeiro a saltar, todos esperavam por isso. O que aconteceu lá em cima? – perguntou um repórter.

            – Não, não. Ninguém ia pular. Acontece que a vista é linda lá de cima. – disse o policial, sorrindo, voltando pro carro.

domingo, 29 de setembro de 2013

O meu bem-estar


Se for ficar longe, fica só um pouquinho.
A saudade é saudável, como o vinho, se
tomado só um copo por dia.
Todavia, todo o dia tua ausência causa azia.

E o aviso da tua volta é como um eno que
se essssssspalha pelo meu corpo e dissolve
o pó da alegria, mandando embora toda a
fadiga que o teu não estar me causa.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pois vem!

Vem, sem rodeios, e me toma para ti
mas como tomar o que já é teu por inteiro?
O que já é teu por direito (do amor)

Chega devagar e me olha bem nos olhos.
Cobre-se comigo ou me descobre o lençol,
tanto faz para mim, apenas venha.

Vem e me arranca dessa cama
ou se joga, de preguiça, para mim que o dia raiou agora
e temos ainda tempo, aqui dentro (e lá fora)

Vem e me enaltece a manhã
vem me beijar com sua boca de hortelã*
de menta,
de café,
de seiva fresca,
de romã.



* em referência à canção de Chico Buarque: Cotidiano.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Voltei àquele lugar


Voltei hoje àquele lugar. Aquele mesmo, lembra?
O que costumávamos ir quando juntos...
Fui e relembrei de como era te esperar.

 E então em minha mente te visualizei dobrando a esquina
e vindo para mim, passo a passo, sorrindo já de longe.

Seu corpo cada vez mais perto, num balanço suave.
Seus olhos fitando os meus, e aquele sorriso que surgia
sempre que nos fitávamos.

Mas nesta noite não teve olhares
nem vindas, nem passos, nem sorrisos.
Teve somente eu.
Lembrando você.
Somente meus dois olhos tristes
por não te ver.
E uma cabeça cheia de memórias nossas
e um peito cheio de saudades suas.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Queria te mostrar como é violento você existir

Meu amor,
É de dar vergonha tanto amor. É latifúndio coronário, monocultura cardíaca – como um país inteiro plantado aos pés dela. O delírio repetindo igualzinho. Você me emociona. Parece feita de terra. Tudo é verdade começando por você, quando você se coloca na frente – como se a janela compreendesse a moldura e a paisagem, então, onde quer que você a coloque, terá sempre a mesma visão. Promete que entende tudo o que eu digo? E por detrás desse jeito de menina selvagem, mas menina, mas selvagem, vê-se o vulcão. Por isso ao seu lado faz calor. Por mim o mundo não vivia. O mundo pode espernear à vontade. Eu ainda vou fazer uma canção pra você. Vou apontar e te dizer, “olha que lindo!” e você vai sorrir pra mim, olhando nos meus olhos sem nem se importar com o que eu estou apontando. Você é a coisa mais bonita que eu já vi. Você e o mar, mas o mar é mulher e mulher só você. Essa frase é da nossa canção. Quero te ver feliz. Matar e morrer com você pra você por você. Em um dos nossos primeiros encontros te dei um livro. Queria te mostrar como é violento você existir. Meu olho dói quanto te vê. Pensei em comprar um machado, um guindaste, um viaduto. Vou te morder os dentes. Pensa em mim pra eu existir. Eu poderia passar o resto da vida acreditando em você e te dizendo “vai…”, “vai lá ver como é…”. Não comprei machado, nem bigorna ou trator, mas te dei o livro. Te dei o livro e escrevi no fim desse texto:
A MULHER E SEU PASSADO
(Rubem Braga em A Traição das Elegantes)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Conto incerto



A lua aparecia pela primeira vez naquela semana, e era de uma beleza tanta que prendia, pelo menos por alguns segundos, quem a olhava. E nisso estava um rapaz, sentado num banco, olhando-a admirado. Ele tinha no colo caderno e caneta, talvez para escrever alguns versos sobre aquela lua, sobre aquela noite, sabe-se lá o quê, não pude ler a mente do rapaz, quem dera tivesse este dom. Sabia-se apenas que ele era um amante daquela beleza natural.
Ali naquela mesma praça, uma garota de cabelos escuros também tinha parado para observar a lua, e como essa parecia gostar de ser observada. A garota tinha um brilho nos olhos que só era ofuscado pelo brilho daquela lua. 
Mas por algum motivo, desconhecido por quem vos escreve, quiçá por quem me lerá, mas a garota desceu seu olhar do céu e foi de encontro ao de um rapaz de cabelo curto e rosto bem barbeado que a olhava sentado num banco. Fica então aqui registrado apenas o que vi acontecer...

O rapaz fazia rabiscos em seu caderno, ainda olhando a garota, que percebeu o movimento da caneta por cima do papel. Talvez estivesse descrevendo a beleza daquela noite, talvez comparando a beleza da garota ao brilho daquela tão irradiante lua. Quem sabe fosse um poeta, um desses loucos românticos que veem beleza em tudo aquilo que hoje se passa em branco para a maioria. Um daqueles rapazes sentimentais que sofre paixões platônicas desde o colegial por não ter desenvoltura com as garotas e acaba se afogando em romances terrenos, onde o vilão, nesse caso o chamado "garanhão", conquista a mulher que quiser, e ai de quem tentar competir com ele, acaba sozinho no final por não saber cuidar, por não dar valor e o mocinho é aquele que, como talvez fosse ele, consegue o amor da jovem donzela. 
Talvez por ser tomada por essa curiosidade, ou por interesse no rapaz que a olhava a moça foi se aproximando dele, devagar para que ele não percebesse e acabasse fugindo, como os pássaros voam quando tentamos bater uma fotografia deles, chegando a invadir seu espaço agressivamente (rápido demais). Parou quando percebeu que o poeta levantava a cabeça para olha-la mais uma vez e logo depois admirar a lua. 
Não posso dizer ao certo o que eles conversaram no momento seguinte, mas pareceu-me que ela gostou do que vira no caderno. Não, o garoto não fugiu à sua chegada, em vez disso, cedeu espaço no banco e sorriu para ela. Com certeza ficou envergonhado, afinal, qual poeta (ou artista) considerado platônico, não ficaria se a sua musa chegasse no momento em que sua obra está sendo feita? Mas sorria, sim, sorria e parecia se deliciar com o sorriso dela também. Devia ter covinhas, ela, no canto da boca. Oh, sim, que belas seriam suas covinhas. E ele também, belo e com olhos bondosos, por que haveria ela de não sorrir para ele? Que talvez a amasse em segredo, quem sabe já não a observava a dias? E agora, que descoberto, mas não sem antes ter certeza de que era correspondido, poderia abrir o coração e os braços para ela, que tinha um sorriso para ele. E tinha um beijo também, que depois de algum tempo conversando, correu da boca dela para a dele. 
O pior de tudo, meus caros, é que talvez nunca saberemos o que estava naquele caderno e o que foi dito naquela conversa, naquele momento. Só que depois de tudo ela se foi, talvez para casa, assim como ele também, para a dele, talvez.



terça-feira, 17 de setembro de 2013

Contos de Pedro e Júlia

Continuando...

            Lá dentro encontrou com a chefe e agradeceu pela chance que ela o dera, quase não conseguindo conter sua animação por estar finalmente numa sala de redação.
            Desde que decidiu cursar Jornalismo, Pedro sonhava em trabalhar na redação de algum jornal. Muitos perguntaram se ele não preferiria ser repórter ou âncora, para ser visto na TV, mas ele já tinha se decidido que queria escrever as notícias, e não apresenta-las na frente de uma câmera. Na escola gostava muito de criar crônicas, contos, mas sentia dificuldade em redigir uma notícia, tanto que sua primeira nota em redação foi 1,0 por ter confundido tudo.
            A chefe de redação o apresentou aos outros jornalistas e também não jornalistas que estavam ali, indicando o nome de cada um. Por mais que os visse como colegas, ele sabia que a vida de estagiário não seria fácil, e que tudo que acontecesse de ruim, colocariam a culpa nele. Todo tipo de serviço não jornalístico (e jornalístico também) é o estagiário que deve fazer: o café, entregar recado, textos, cartas, colar selos, etc. E dane-se se não tiver tempo!
            Não decorou nomes além do da chefe, Sandra, não tinha essa habilidade de decorar vários nomes em tão pouco tempo. Notou que lá dentro nenhum dos jornalistas andavam ‘na moda’, isso era algo que ele já esperava: a vaidade de um jornalista é com o seu texto. Até porque é o que garante a comida dentro de casa (e olhe lá). Pedro também já sabia que a situação financeira não seria das melhores, na verdade, todos, antes mesmo de começar o curso, já estão cientes disso. E ainda mais sendo estagiário!

            Respirou fundo e foi pra mesa reservada a ele. Pegou a lista de assuntos sobre os quais escrever e não perdeu tempo, começou a ler, uma a uma, tentando buscar alguma ideia pra sua primeira crônica na coluna.  

domingo, 15 de setembro de 2013

Nostalgiando



Saudades de meus dias poéticos
e de olhares sintéticos.
Lábios a mordiscar

Memórias daquele incerto
que tanto parecia certo.
Sorriso em seu olhar

Saudades de dias calmos
de lidos belos salmos.
Croce* fixa no luar

Os dias frios descendo a rua
Em dias quentes - a pele nua.
Beleza talvez vulgar

Caem contatos tão remotos
no abismo, terremotos.
Estou a nostalgiar.




*Croce: cruz em italiano
Nostalgiando e nostalgiar: neologismos

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Contos de Pedro e Júlia

O recomeço de Pedro

                O dia entrava claro pela janela do quarto de Pedro e o vento frio da manhã fazia com que ele não quisesse se levantar nunca da cama. Mas ele levantou. Tomou seu banho, trocou de roupa, tomou café e desceu, teria um dia duro. Pegou o ônibus e seguiu pra universidade, a primeira parada daquele que seria um dia e tanto para ele.
            Chegou na sala e sentou perto dos amigos com os quais sempre conversava e geralmente fazia os trabalhos e pesquisas que eram passadas. Contou para eles a novidade: tinha arrumado um estágio. O seu primeiro. Estava animado e também nervoso para começar, com medo que não correspondesse às expectativas. Medo esse que ele tentava se livrar ainda, visto que a gente nem sempre sabe o que as outras pessoas esperam. Todos o saudaram com parabéns e perguntaram sobre esse estágio, onde seria e tal.
            – Por enquanto é só uma coluna no jornal daqui mesmo, eu posso fazer sem sair de casa, porém hoje terei que ir lá conversar com todos e ser apresentado como novo colunista.
            Todos desejaram boa sorte a Pedro, que realmente precisaria.
            Depois que a aula terminou ele mandou uma mensagem para sua namorada, dizendo que se não conseguisse responder às mensagens dela é porque estaria no estágio, e ela logo respondeu, desejando-o boa sorte e dizendo que estava orgulhosa dele, e que ele continuasse se esforçando para conseguir o que queria. Ele sorriu ao ler a mensagem e respondeu que continuaria sim lutando pelo seu lugar, e que agradecia por tê-la ao seu lado, de novo, semeando esperança nele.
            “Cê sabe que te amo, e vou estar do seu lado sempre. Agora vai lá e não perde essa chance. Beijos” foi a mensagem que ela mandou, ao que ele respondeu: “Sei sim, e eu te amo, e sou feliz por termos começado algo novo, de novo. Vou lá, até depois, beijos.”
            E foi, mais confiante que estava quando acordou. Era incrível como aquelas palavras o fizeram tão bem, a ponto de esquecer o quanto estava nervoso. “Ela sempre tem esse efeito sobre mim, e acho que sempre terá.” Pensou no quanto ele conseguira mudar no último ano, simplesmente por ele ter acreditado que poderia ser melhor. “E ela também acreditou, isso foi o que me impulsionou”, pensou ele.
            – Bom dia, sou Pedro Souza, a chefe de redação me chamou hoje aqui para me apresentar a equipe, sou o novo estagiário – falou para a secretária.
            – Ah, sim. Claro. Vou só avisar que o senhor já chegou. – Pedro quase não conteve uma risada que veio de repente. ‘“Senhor’, quem diria?” – Ela está esperando na sala à esquerda, pode entrar.

            – Obrigado. – E entrou.

sábado, 3 de agosto de 2013

Esse inverno


Ela é o sol e quando
estamos separados eu esfrio
e eu viro chuva, gelo,
vento gelado batendo no meu rosto.
Sendo ela um sol 
distante de mim o calor 
demora a chegar.
Quando chega...

Mas esse inverno vai passar
e da primavera chegará o ar
e então tudo vai renascer.

No fim, espero que tenhamos 
sempre um bom senso 
de amor.






domingo, 28 de julho de 2013

Como um rei

Eu sei que demorei muito a perceber o quão pouco eu fiz, o quão pouco ofereci sendo que tinha tanto a oferecer. Eu ainda tenho. Ela sempre me mostrou o que de mais verdadeiro tinha, o que sempre sentia. Fosse medo, alegria, tristeza, amor. Principalmente o amor. Eu que demonstrei pouco, por mais que amasse muito. Ainda amo. E creio que amarei por ainda muito tempo.
Uma vez eu a disse que nós parecíamos muito com uma canção. "Ainda é cedo". Eu egoísta, sempre cheio de mim. Ela atenciosa, sempre querendo o melhor pra nós. Era como se eu só quisesse estar ali, com ela, pelo simples fato de me ser confortável. Enquanto ela fazia planos, sonhava alto, baixo. Eu devia tê-la ouvido mais e me calado menos, porque sempre que eu falava demais era o orgulho falando no meu lugar, e gritando tão alto que eu nem me ouvia, não a ouvia. E o pior de tudo era perceber, depois, que tudo que ela me dizia estava certo, que era verdade.
Não queria ver que estava errado, muito menos admitir. Sempre fui metódico e mandão. A nobreza do coração dela não me tocava, infelizmente. E que coração ela tem. Sempre disposto a perdoar, sempre acreditando em mim, acreditando que eu conseguiria mudar e tentando sempre me fazer acreditar que poderia também. Mas eu não queria acreditar, estava certo que nenhuma pessoa podia mudar, que eu era aquilo e que aquilo eu seria, e isso me impediu de tentar naqueles dias. Era sempre ela quem me chamava pra reconciliar depois de uma discussão, que me chamava de manhã com uma mensagem de mais um mês completo de nós dois.
Era como um rei que eu era tratado, e como todo rei pensava primeiro em mim e não em nós, como devia ser. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

As fases de Amanda: um dia comum


  Amanda acordou feliz: a chuva que caía ainda era a mesma que começara antes de ela ter ido dormir. Checou o celular e viu uma mensagem de algum colega que avisava que não haveria aula. Isso era muito bom: passar o dia todo na sua cama quentinha. Estava ainda de pijama, e não pensava em tirá-lo tão cedo, planejava ficar em casa o dia todo.
  Lembrou-se dos últimos acontecimentos da sua vida e viu o quanto estava estranha: algum louco que a perseguia, tanto mandando mensagens quanto em seus sonhos. E como se não fosse o bastante, ainda sabia pra onde ela ia todo dia. Ela sentia medo de que a qualquer momento o seu celular vibrasse e ela visse algo do tipo: 'dia tedioso em casa, né, Amanda?' Seria muito assustador se isso acontecesse, mas de alguma forma, logo depois que suas sextas foram nada mais, nada menos que ficar em casa, as mensagens pararam. O dia estava perfeito para ela, começando por não ter precisado trocar de roupa. Ficava lendo, ouvindo seus CDs e assistindo a algum show ou séries, e como ela gostava de séries. Tinha por perto uma garrafa com chocolate-quente, que a dava água na boca só pelo seu cheiro, imagina então o sabor?
  A noite não foi diferente: ficou em casa, não queria sair, mesmo com a chuva tendo parado. Ela sempre esperou que um dia desse chegasse, e também sentia medo em sair, o estranho poderia estar só esperando lá embaixo para pegá-la desprevenida. E ela não duvidava que ele já poderia saber por onde ela morava, de tanto parecer conhecer seu dia. Por mais que a chuva tivesse parado a noite ainda estava fria e Amanda foi tomar um banho quente. Ainda ponderou, não queria ter que tirar o pijama e colocá-lo de novo, mas enfim foi. Tirou sua roupa e entrou na banheira, a água quente descendo em suas pernas longas e definidas. Sentiu o toque da água arrepiar seus pelos, todos eles, mas relaxou depois que a água ultrapassou o nível de seus joelhos, deixando as pontas dos dedos de fora.
  Então ela se encolheu, levantando os joelhos e passando as mãos em volta das pernas, querendo não precisar sair dali. Mas teve que sair quando terminou o banho pois a água já estava esfriando. Levantou-se e a água escorreu por seu cabelo e por seu corpo, contornando seus seios e descendo até se unir ao monte de água que esperava lá embaixo. Enxugou-se e voltou a se vestir, secando bem os cabelos. Depois voltou para a cama, leu algumas horas e por fim adormeceu, feliz pelo dia feliz que teve, sem sustos, sem medos. Só a chuva, seu quarto, sua cama. Nada a menos, nada a mais.





Fonte da imagem: http://www.tumblr.com/tagged/banheira 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Um pouco de Anne: No calor da manhã


            Anne não lembrava de ter ido dormir, mas acordou deitada num colchão, e reparou o curativo na sua perna. Lembrou então de tudo que ocorrera na noite passada, e associou que, por conta da perda de sangue, acabou ficando inconsciente e por isso não lembrava mais nada. Do seu lado, já de olhos abertos, André a fotografou de perto e depois sorriu. Ela riu junto e depois o beijou, sentindo o seu hálito adocicado, mais açúcar que café.
            Fez uma careta, não queria levantar. Queria ficar ali, toda manhosa, deitada com ele. “Mesmo assim não o amo”, pensava. E não amava mesmo, e ele sabia que não. Anne tinha muitas aventuras, algumas mais perigosas que outras, mas eram apenas aventuras, e logo, logo essa também entraria para a lista. Antes disso precisava acabar, e ainda não estava na hora.
            Foi até a cozinha, precisava de um café pra raciocinar direito. As janelas fechadas permitiam que ela passasse o dia usando apenas sua calcinha. Que ela, por sinal, também não lembrava de ter vestido, mas a excitava o pensamento de que ele a teria vestido. Talvez depois ela o deixasse tirar com a boca... Deu uma risadinha e tomou um gole do café, amargo, e fez uma careta. Depois de adoçar e beber o café, voltou pro quarto e reparou que algumas fotografias estavam estendidas num varal, que atravessava o quarto dele. E sorriu ao perceber de quem eram as fotos. “Ora, ora, moço. Quer dizer que tirou a noite pra me fotografar?” E sorrindo, observou cada foto: seu corte na perna, ela deitada de bruços, já com a calcinha e outras que mostravam seus seios.
            Foi até a janela, onde ele estava, e o abraçou, apertando-se contra ele, esmagando seus cheios e redondos peitos nele, e oh, como ela achou bom isso, poderia apostar que ele também. O sol nascia lá fora, ainda laranja, e uma brisa leve batia neles, arrepiando alguns pelos dele, pelo menos os que ainda não se arrepiaram com os beijos no pescoço que ela o dava. Quando ele se virou, ela o beijou na boca, e sentiu a pressão quando ele a puxou, colando-se ao corpo dela. Sentiu seu peito, quase sem pelos, ir e voltar, de acordo com sua respiração, e ele já estava duro novamente.
            Ela foi em direção à sua estante, onde viu vários CDs empilhados, e alguns livros também. Colocou pra tocar o Let it bleed, de 69, dos Stones pra tocar e começou a dançar enquanto ele a fotografava. Nesse passo ela já tinha vestido uma das blusas dele, uma com o famoso logo também dos Stones: o bocão com a língua de fora. Ela nem sequer lembrava que ele estava ali, fotografando, ou que usava apenas blusa e calcinha. Na verdade até se sentiu mais solta, mais folgada. Gostou daquilo. “Poderíamos repetir mais vezes” ela disse, e ele respondeu: “Só se estiver falando de tudo e não só das fotos.” Ela sorriu e foi até ele, beijando-o mais uma vez. Não precisava perguntar mais nada, então ele não perguntou.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um pouco de Anne - Parte II




            Deitado na cama, ele a olhava ali, a flor da pele, com aqueles seus grandes olhos, agora tão estreitos, forçando uma conquista, uma sedução. Isso o divertia, mas ele sabia que já tinha feito com que ela esperasse demais. Chamou-a e ela foi. Sentiu o cheiro adocicado do perfume dela invadindo suas narinas e não demorou muito até que ficasse excitado. Sentiu os seios dela se enroscando no seu peito, sensação maravilhosa, que acabou quando ela sentou por cima dele, que já estava duro.
            Devagar, de um por um, ela o deixou tirar os botões de sua blusa, sentindo os dedos dele a tocarem, e deslizarem por seus seios cheios. Chamou-o para perto, com um movimento de dedo e o observou enquanto ele os beijava, suspirando a cada marca que ele deixava, a cada suave roçar dos seus lábios. Puxou a camisa dele para cima, e a atirou para o lado, empurrando-o de volta e deitando em cima dele.
            André tinha duas mãos que o empurravam para a cama, e deixou que elas o deitassem, só para em seguida usar as suas para puxá-la por cima dele. Desceu os dedos por toda a extensão de suas costas até chegar na parte de trás seu short jeans, que por sinal estava atrapalhando, e apertou com força, só pra ouvir, ali no seu ouvido, ela suspirar. Enquanto ela deitava sobre seu corpo, sentia o macio da pele branca dela se unindo à sua, aquele perfume que ela exalava, e o encanto de seus grandes olhos.
            Enfim, tudo que atrapalhava foi retirado e então veio à cabeça de Anne o pensamento de pouco tempo atrás, o movimento de dentro para fora, o calor que ela sentira, tanto na sua imaginação quanto no corpo, e o suor que o fazia deslizar. “Agora ele vai pegar o canivete”, ela pensou, “e me entregar. Logo depois vai estirar seu braço, com aquele seu sorriso branco e olhos tão belos.” Mas não havia canivete, não com ele.
            Quando tudo terminou, ela foi na sala, ainda nua, enquanto ele continuava deitado. Pegou a faca que estava em cima da mesa e ficou admirando-a, pensando em quanto ela estaria afiada. Descascou umas laranjas e fez um suco, sem açúcar ou adoçante, gostava da pureza de tudo, até da sua, se é que existia alguma pureza nela. Ouviu os passos de André atrás dela e se virou, sorrindo. Tinha a faca na mão. Seus olhos corriam por todo o corpo dele, mas não tinha desejo em feri-lo. Na verdade, seu desejo era o contrário: ver um fio de sangue descer da sua pele branca. Oh, parecia ser tão lindo na sua cabeça.
            “Acho que sei o que você quer.” E ele sabia, era incrível, mas desde que o conheceu, ele sabia sempre o que ela queria, com um único olhar, uma avaliação, e ele parecia ler todos os pensamentos dela. Aproximou-se dele, soltou seu cabelo escuro e o abraçou, como que em agradecimento. Aquilo o deixou duro novamente. Mas não, não foram os dois seios dela que o excitaram, mas sim o que estava prestes a fazer. Ela também estava animada, e seu prazer só aumentou, enquanto sentia, devagar, a lâmina afiada descendo em sua perna, formando um caminho vermelho no seu branco. Não gritou, sentiu mais prazer ali que quando estava na cama com ele. E no lugar da dor viera uma sensação de alívio, uma sensação de estar viva. Um sentimento que só aparecia quando estava com ele, quando a dor não doía.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um pouco de Anne - Parte I


            "Eu estava na casa dele, estava no quarto dele. Sentia minhas mãos tremendo, suando. Mas eu não sentia medo. Ele apareceu na porta do quarto, e na sua mão vi uma lâmina, uma faca. Aproximou-se de mim, devagar, com um lindo sorriso no rosto e, com um pouco de força, o suficiente para rasgar minha pele, desceu a faca por ela..." 
            "Ei, ei." Ela se assustou, pegando o primeiro objeto que viu, uma faca, que estava em cima da mesa. Às vezes ela se surpreendia com o quanto ele sabia como ela agiria. Ele a pediu para se acalmar, dizendo que "eu não vou te machucar, você sabe. Nunca te machucaria..." e a beijou no pescoço, subindo suas mãos pelas costas dela, fazendo-a suspirar. Parou. Lembrou que ainda precisava de um banho.
            Anne não curtiu muito ele ter parado de beijá-la, assim, tão de repente. "Estava bom, até," ela pensou. Sentou-se na cadeira e ficou esperando, perdendo-se de novo em pensamentos, enquanto olhava fixamente para seu braço, pálido como cera, imaginando a beleza que seria, um fio de sangue escorrendo por ali. Às vezes se assustava com os próprios pensamentos. Seus devaneios sempre envolviam caras legais, lâminas e sangue. E ela pareceu desanimar um pouco com o que ele disse. 
            André a observava ali, sentada em seus devaneios, como uma menininha que imaginava um mundo encantando, com lobos, leões e homens, belos homens barbeados. Aliás, ele tinha feito sua barba na noite passada. Não, talvez não fosse com isso que ela tanto pensava. Estava muito absorta para pensar em homens barbeados, mas talvez ainda pensasse em lobos. Garras e lâminas eram mais a cara dela, e pelos.
            “Seu corpo estava sobre o meu, e eu o sentia dentro de mim. Sua boca era macia, beijando meu pescoço, ah... Do nada ele se levantou, e me deu um olhar cortante, com um sorriso que mais parecia uma minguante. Não estava gostando nada de ele parar o que estava bom na metade. Então ele pegou minha mão e colocou nela um pequeno canivete, no passo que estirou seu braço, ainda sorrindo.”
            “Anne? Alô?” Ela estava parada, observando a janela, ou talvez o que estava lá fora. André se aproximou por trás e a abraçou, tentando acalmá-la, quando percebeu que suas mãos tremiam. “Você está com medo? Ou isso é só o tesão de estar comigo?” Beijou-a mais uma vez no pescoço, e todos os pelos do corpo dela se eriçaram. Um simples relance de olhar no corpo dela já o deixava excitado, imagina então o que aquele abraço o causou? E não só a ele, obviamente.
            Quando ela sentiu o corpo dele junto do seu, uma sensação de urgência a invadiu, um sentimento de perigo, um prazer. Virou o rosto para beijá-lo, e depois o corpo. O peito dele não era musculoso, mas ele tinha ombros largos, e ela gostava disso. Controlando seus passos, foi o empurrando para o quarto, onde já deveriam estar. Estava ofegante, e por mais que lá fora chovesse e ventasse, ali dentro ela só pensava em tirar a roupa, o calor a consumia, embora ela quisesse que outro alguém a consumisse. Ela o derrubou na cama, e deu um sorriso malicioso, daqueles que os olhos estreitados e a boca fechada dizem tudo o que é preciso saber.





Fonte da imagem: http://astralportal.blogspot.com.br/2010/12/lua-minguante.html

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O sino da divisão

    
    "Você ainda lembra como era o sinal? Como era quando você era jovem?"
    "Ding... Ding... Ding... Aquele era o sinal. Toda a rua já estava deserta quando o sino começou a badalar. Quase todas as noites os Mascarados tentavam fugir do lado deles pro nosso. E só pararia quando todos estivessem do lado certo da cerca.
    Desde que uma infecção se espalhara numa fábrica da cidade, muitos trabalhadores ficaram presos, cercados na fábrica. Não sabíamos se a doença podia ser adquirida pelo contato, mas também nunca quisemos saber. Não queríamos nos arriscar e acabar como os que estavam do outro lado. O medo começou a tomar conta da população. Toda vez que algum deles tentava ou até mesmo conseguia atravessar a cerca, o sino badalava e todos íamos para nossas casas."
    "Mas... Havia gente que sentia falta dos homens, ou todos ficaram felizes e conformados com aquilo?"
    "Algumas mulheres que ainda amavam seus maridos se arriscavam e tentavam ajudá-los, minha mãe foi uma delas até, mas eram sempre repreendidas pelos outros e pela força policial, que não queriam arriscar. Por mais que gritassem e chorassem que precisavam deles e que os filhos, como eu, também sentiam saudades, ninguém queria os deixar entrar e contaminar seus lares.
    "E esses homens, os Mascarados, todos usavam máscaras no trabalho?"
    "Nem sempre os Mascarados foram chamados assim. Todos trabalhavam sem máscaras, e só depois da doença ter se espalhado e de os policiais encontrarem um homem que trabalhava lá, morto na rua, com marcas escuras no rosto e nas mãos. Quando parecia que a doença estava se espalhando pelo ar, foi aí que eles começaram a usar máscaras. Não sei se foi medida da Prefeitura ou deles mesmos, mas passaram a usar máscaras de gás, o que os tornava assustadores."
    "Um desses homens, você disse, era o seu pai. Como ele morreu?"
    "A luz estava alta e rodava pelos cantos da cidade enquanto o sino continuava tocando, sinal que ainda procuravam homens de máscara pelas ruas. Os policiais usavam luvas e suas fardas eram completamente fechadas, sobrando espaço apenas para os olhos e o nariz. 'Ali um! Comigo!' E foram atrás do homem que usava máscara, e adivinha quem era? Meu pai. Não tiveram nenhuma misericórdia, nem deram chance para que ele mostrasse que não era contagioso. Três disparos: um na perna esquerda, outro na coluna e o último na cabeça. Eu estava na janela, eu vi tudo. Meu pai tinha descoberto que não era contagioso, e eu também sabia disso. Caso contrário não estaria aqui com você, hoje."
    "E agora uma última pergunta: como é estar desse lado? Agora você entende o por quê das máscaras?"
    " Agora eu entendo, sim. E defendo também, tanto que estou aqui com minha máscara, e me sinto do lado certo da cerca. Todos esses homens, como você também está de prova, só precisavam de cuidados, e foi o que eu trouxe. As máscaras simbolizam apenas que eles não querem que os ignorantes, com seu preconceito feio, respirem o mesmo ar que eles. Agora estão todos curados, trouxe remédios, e quando voltei sem nenhuma marca ou sinal de doença, outras mulheres me seguiram. A cerca continua, acho que sempre vai continuar. E vai durar até que o preconceito suma da cabeça daquelas pessoas, como sumiu da minha."






Fonte da imagem: http://pensamentosdiretos.blogspot.com.br/2010/11/o-velho-sino.html 

sábado, 22 de junho de 2013

Abaixo do normal


   Esses tempos são frios, literalmente. Antes de viajar chovia muito, e quando cheguei ao meu destino, também chovia. Houve um momento em que eu não queria deixar o conforto de minha cama, pra enfrentar as horas de viagem sentado num banco de ônibus. Antes eu teria vindo mais feliz.
   Como eu era antes? Antes de tudo isso acontecer, antes de eu ter tido você? Não me lembro o quê ou como eu fazia, nem pra onde costumava ir quando estava aqui. A falta do calor do corpo dela me deixou frio, a distância me esfriou por dentro, deixando nada mais que cinzas dentro de mim. Chuvas, chuvas, queria mais sol, mais calor. Esse calor eu sempre tinha antes, quando eu vinha, feliz, sorrindo. Quando eu ainda a tinha.
   Tenho que me lembrar como eu era antes dela, antes de tudo, antes do começo. Ou isso ou então aprender a ser de novo, ir em outros lugares, andar com os amigos, isso eu fazia antes. Na verdade, preciso conversar com eles, perguntar como estão as coisas, como andam os trabalhos, os estudos, tudo! Não me lembro o que eu costumava ouvir, e nem de quando as músicas de amor não faziam sentido. Agora cada letra traz um pouco de dor, alegria, medo. Aperto!
   Vou tentando reaprender como eu vivia, como eu sorria, como eu saía quando não era com você. De quando eu bebia com os amigos. Vou tentando lembrar de como eu era, e caso não consiga lembrar, posso tentar criar um novo eu.







Fonte da imagem: http://www.humaniversidade.com.br/boletins/depressao_osho.htm

domingo, 2 de junho de 2013

As fases de Amanda: Primeiro encontro


Amanda acordou sorrindo naquela manhã. Estava chovendo lá e ela conseguia ouvir os pingos na janela, que pareciam tentar acordá-la. Por mais que a noite passada tenha sido horrível para ela, a chuva lá fora a fazia se sentir melhor, a ponto até de se olhar no espelho e sorrir para si mesma. Percebeu que ainda estava com seu vestido branco e também que precisava de um banho, então devagar o tirou e se admirou por um tempo. Seus seios eram pequenos, mas bonitos e redondos, cabiam em suas mãos.
Em outro ponto da cidade, um homem com olhos fundos preparava um café e fritava ovos e bacon, teria um dia interessante, ele sabia. Pegou o jornal na porta e depois que o café, amargo como ele gosta, estava pronto, serviu-se, e também dos ovos e bacon, estalando a cada mordida. Na parede de seu quarto havia uma Olympus, ele gostava muito de fotografar. Seu quarto era cheio de fotografias espalhadas, tanto nas paredes quanto pelo chão. Entre muitas delas, havia fotos de uma bela garota, com grandes olhos claros e cabelos castanhos. Na maioria das fotos ela estava em algum banco ou em pé numa parada de ônibus, e em quase todas as fotos ela usava uma saia ou shortinho. Mas nenhuma das fotos parecia ter sido tirada com o consentimento dela.
Depois de uma longa manhã de sexta-feira, Amanda saía da escola em direção à parada, teria reforço pela tarde e não gostava de se atrasar. Usava, como era frequente, saia e uma camisa dos Smiths, além de seus óculos, um pouco grandes para seu rosto. Com medo de perder algum ônibus que fosse para seu bairro - eram apenas dois e demoravam a passar - apressou o passo e quase correu, mas se conteve. Chegando à parada, olhou pro lado que o ônibus chegaria e quando não o viu, sentou no banco para esperar, ali perto, sem ela perceber, um homem tirava uma câmera da bolsa. Amanda sentiu o celular vibrando na bolsa, e o tirou, achando que podia ser sua mãe, mas para sua tristeza era uma mensagem do creepy, que dizia: "Amanda, à sua direita." E assim que ela virou o rosto, um flash a cegou. 

sábado, 18 de maio de 2013

Notícia de jornal

Era cedo quando seu celular tocou e a sua chefe jogou as palavras em cima dele: 'criança encontrada morta a 50 metros da sua casa, é bom pegar a matéria toda!' Tomou seu banho e seu café, vestiu-se e viu um recado que estava na geladeira: "papai, hoje vou ter treino de futebol às quatro, não esqueça, te amo." Lembrou que o filho foi pra escola com a secretária da casa mais cedo hoje. Saiu, trancou a porta e foi atrás da matéria do dia.
Ele já trabalhara com mortes antes, essa era a segunda de uma criança. Na primeira vez foi horrível para ele: ter que incomodar uma pobre mãe que acabou de perder um filho, não era aquilo que ele esperava que fosse virar a sua vida. Estava apenas fazendo seu trabalho, mas a cada pergunta que fazia à mulher, não recebia resposta nenhuma a não ser soluços. Estava odiando ter que estar ali, mas ou era isso ou não teria um emprego para sustentar a casa e cuidar do filho.
Voltando ao presente, Jonas já tinha avistado o local onde a criança fora encontrada: cada cidadão que passava por ali parava para se juntar aos outros que lá estavam e com isso um grande círculo foi formado ao redor do corpo, o que tornou muito fácil encontrá-lo. Ele conhecia alguns dos rostos que estava ali, alguns moravam na mesma zona que ele, até seu vizinho estava ali.
Quando ele chegou perto da multidão alguns rostos se viraram para ele e ficaram paralisados. Logo mais gente estava olhando para Jonas e esquecendo do corpo. Não entendia porque estavam todos olhando para ele, 'será que vesti a camisa avessada? Meu rosto está melado?' Mas não era nada disso. Era pior: o corpo que estava no centro do círculo de pessoas era o de seu filho.
Na hora ele quase caiu, perdeu seu chão. 'Era apenas um garoto!' gritou em silêncio, 'nunca fez mal a ninguém.' Jonas se viu perdido em meio a tanta gente, muitos ainda olhando para ele. Mal percebeu quando sua equipe do jornal chegou, com câmera, microfone e uma forte luz que o tirou de seus tristes pensamentos. 'Vamos, Jonas, não podemos perder tempo!' De repente se viu no lugar da mãe que tinha entrevistado da outra vez. Sem saber direito o que fazer, falou à sua produtora: 'eu não posso fazer isso.' 'Ou você faz ou não terá o que fazer por mais tempo, agora faça seu trabalho.' disse a produtora, que estava no ponto. 'ERA O MEU FILHO! NÃO POSSO NOTICIAR A MORTE DE MEU PRÓPRIO FILHO!' por mais que estivesse triste, ele ainda não tinha derramado nenhuma lágrima.
O mundo lá fora sumiu e Jonas via agora a si mesmo na TV, em meio a uma morte misteriosa de um garoto - seu filho - que fora encontrado morto embaixo de um banco por a velha da banquinha de jornal. Não lembrava de ter dito aquelas palavras, mas lá estava ele noticiando a morte de seu filho: 'hoje de manhã, um triste acontecimento tomou a todos da cidade de Grazza, um garoto de apenas sete anos foi encontrado morto. Victor Iscólera não apresentava sinais de luta no garoto, nenhuma marca mostra que ele foi espancado ou que sofreu abuso. Meu filho foi morto hoje. A polícia ainda não sabe como ou quem, mas estão procurando provas e algum indício que os ajude na busca. Enquanto isso o que eu faço? Não posso simplesmente ir para casa, assistir ao noticiário e esquecer que uma criança foi morta porque foi o meu filho. Eu iria deixá-lo no futebol hoje de tarde. Dessa vez aconteceu com o meu, mas poderia ter acontecido com o de qualquer um. E mesmo sabendo disso, só fazemos algo quando o pior acontece.' Seus olhos desceram em lágrimas e o jornal cortou para os comerciais.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Matteo


Não sei se essas pessoas que dizem conversar com deus escutam alguma resposta, mas eu já tentei, meu amigo, sim eu tentei muito, e nunca ouvi nada de volta. Até que desisti. Matteo estava sentado embaixo de uma lona, esperando a chuva passar para que pudesse voltar pra sua casa e despistar os dois homens que o perseguiam. Ele sabia que sua grande língua ainda o colocaria na fogueira se não a controlasse.
Em plena Roma, país de maioria católica, ele dizer que não acredita em Deus, e que não existe paraíso e nem inferno. "Saia daqui, seu herege!" disse um homem, e outro se junto a este e disse: "seu lugar é no inferno!" Enquanto saía passo a passo da la taberna os homens riam e gritavam para ele ir logo, mas quando chegou na porta virou e disse: "vocês não seguem o seu deus, vocês correm atrás de sua religião. O velho que está sentado naquele trono no Vaticano diz ser representante divino, mas tudo que ele faz é se aproveitar da vossa ignorância", fez uma reverência e saiu. Os homens olharam feio e um deles deu um passo na direção da porta, sendo seguido pelo outro, no momento seguinte já estavam correndo atrás dele pelas ruas sujas de Roma, cheias de órfãos e pedintes. A chuva não estava ajudando muito, o que também era bom, vendo que também atrapalhava os outros dois. Entrou em uma ruela e se escondeu embaixo de uma lona e viu os dois homens passando direto. Cegos, como eu imaginei. 
Ficou ali até que a chuva parasse e seguiu seu caminho para casa. No meio dele percebeu que alguém o observava atrás de uma das colunas do Panteon di Agrippa. Parou e virou o o rosto, e lá estava ela: uma mulher coberta por um manto que caía até a anca, que cobria seu vestido rubro e um capuz que cobria parte de seu rosto. "Ora, ora, o que faz uma mulher a seguir um homem a essa hora?" E ela o respondeu: "queria ver até onde iria um homem sem Deus." Ele deu uma fungada e então se lembrou. Mas é claro, ela estava lá também, agora me lembro. E ele disse: "Então você também estava lá?" Com um sorriso ela confirmou e o convidou para um passeio, e mesmo sabendo que poderia voltar a encontrar aqueles dois pelo caminho, algo o prendeu nela, e ele aceitou.
"Mas, conte-me, quando você passou a não acreditar em Deus?" Matteo ficou surpreso com a forma que a pergunta veio, sem rodeios. Deu uma risada e pensou um pouco, até que formulou a resposta e falou: "eu já rezei muito, sabe? Mas não obtive nenhuma resposta." "Já pensou que você pode apenas não ter compreendido a resposta?" Ela quer mesmo saber, pensou. "Eu vejo todas essas pessoas que esperam por alguma intervenção divina, rezando e sendo pacientes, e tendo suas esperanças alimentadas pela ignorância de que só um deus salva, e que quem não se curvar diante dele ou do papa vai queimar no fogo do inferno. São aconselhados a sempre pedir e agradecer. Vivem pedindo por proteção, tanto para eles quanto para os que amam, mas eles mesmo não se protegem." Seu rosto podia ter sido feito em mármore naquele momento, e seus olhos miravam o vazio, e continuou: "depois que eu percebi que o que importa é eu ir atrás do quero, não precisei mais pedir a nenhum deus, não ouvi nenhuma resposta." Ela sorria quando ele terminou de falar, olhando para ele, disse: "e quanto a não existir Paraíso ou Inferno, o que você quis dizer?"  "Quis dizer o que disse, oras. Que não existe paraíso ou inferno, nem deus ou o demônio. Eles são como dois lados da mesma moeda, e é você quem decide para onde vai, jogando-a para cima."
Quando menos percebeu, eles já estavam na porta de sua casa e a mulher se despediu com um beijo na bochecha barbuda dele. "Cuidado com esse seu pensamento, aqui em Roma poucos o apreciam. Deveria visitar Florença algum dia, lá você não será perseguido ou condenado por não acreditar em Deus." Dito isso, ela se virou e voltou às sombras das ruelas romanas. Matteo entrou e foi para seu quarto, encontrar-se com seus sonhos.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

As fases de Amanda: um pouco do outro lado


Ele estava sentado num banco sob uma árvore, observando. Vez e meia olhava as horas no seu Chopard e então voltava a observar a rua. Às vezes parecia impaciente, pegava o celular e ia passando as fotos, analisando cada uma por um tempo. Não fazia barulho, tanto que as pessoas quase não o notavam ali. De repente ele se pôs de pé, como se alguém o tivesse chamado, mas ninguém o chamou. 'Chegou a hora', pensou, começando a procurar o número dela no seu celular. Quando a viu saindo da escola um sorriso se formou em seus lábios, e seus olhos fundos pareciam queimar de excitação, observando atentamente cada passo que Amanda dava em direção à parada de ônibus.
Enquanto digitava uma mensagem, não tirava os olhos dela, adquiriu essa habilidade de tanto a repetir, e então enviou: 'voltando pra casa agora amanda?' Esperou um pouco, sempre mantendo os olhos nela, e viu quando a mensagem foi recebida: ela tirou o celular da bolsa e enquanto lia olhava para todos os lados, a fim de tentar encontrar quem tinha enviado a mensagem, mesmo sabendo que seria inútil. Seu sorriso ficou maior a cada minuto que ele a via ali, sem saber pra onde olhar e assustada com aquela mensagem que não sabia de quem era.
A noite havia caído e a luz da lua era de uma beleza gigantesca. O vento frio soprava não muito forte, mas forte de mais para ser uma brisa, e levava os cabelos de Amanda pra trás, e ah, como ela gostava daquilo. As luzes da casa de shows quase a cegaram quando ela entrou e procurou alguém conhecido lá dentro, só pra não ficar sozinha. Não queria nem ter saído de casa, mas era a festa de sua prima, e ela não quis faltar. Usava um vestido branco e salto não muito alto, e luvas de seda branca e cetim. Quando enfim encontrou alguns amigos sentou com eles e conversou e riu com eles. Dançou pouco, gostava mais de dançar sozinha, quando ninguém mais podia vê-la errar alguns passos e cair de bunda no chão.
Seu celular vibrou e ela abriu a bolsa para pegá-lo, temendo que fosse o número estranho que a mandara mensagem mais cedo, e que sempre a deixava louca, olhando para todos os lados procurando alguém que pudesse estar vigiando. E era. E a mensagem a fez relembrar um sonho seu que lutava para esquecer de vez: 'você está linda hoje Amanda. ñ quer dançar comigo?' Ela sentiu um arrepio passar por todo o seu corpo e seus olhos viravam para todos os lados, como se tivessem vida própria.
Levantou-se e só não corria porque não havia muito espaço, mas estava indo em direção à porta, quando de repente alguém tocou em seu braço: todos os seus medos não foram iguais ao que ela sentiu nesse momento, mas quando virou o rosto e viu que era apenas um de seus amigos, ela correu e se aninhou no peito dele.
Depois que a deixaram em casa, agora mais calma, ela foi direto pro quarto e pulou na cama, nem sequer tirou o vestido. Enfiou a cara no travesseiro e foi dormir, torcendo pra não sonhar.


Imagem disponível em: http://www.percepolegatto.com.br/2011/12/25/memorias-de-gentis-predadores/

domingo, 7 de abril de 2013

As fases de Amanda



Eram três da manhã, mas Amanda ainda estava acordada. Não sentia sono, como na maioria das madrugadas que passava em claro. Seu vício por séries e livros a deixava sempre querendo ver mais um episódio ou ler mais um capítulo, e mais um, mais um... Quando estava na escola, só pensava em voltar pra casa e dormir. Sentava sempre no lugar mais frio e afastado da sala, falava pouco e se sentia bem assim. Da janela do seu quarto via a rua vazia, uma árvore velha e a lua cheia: uma enorme e amarela bola no céu. E ficou admirando aquela lua, talvez pensando como seria a vida lá, ou refletindo se o homem realmente pisou nela. Abriu um pouco a janela e a brisa da noite entrou no seu quarto. Gostava de sentir o vento em seu rosto, dava um pouco mais de alegria, ou uma sensação de prazer, não saberia definir, mas gostava. Às vezes botava pra tocar Smiths ou Barão e ficava dançando a música que tocava dentro dela, nos fones em seus ouvidos, e sorrindo, acompanhando cada letra e deixando se levar pelas melodias.
Seu celular tocou e assim que o pegou, Amanda gelou: número desconhecido. Quem ligaria àquela hora para ela? De certa forma uma adrenalina subiu por todo o corpo dela, não queria atender mas era como se ouvisse um chamado, algum tipo de feitiço que ela gostava de sentir. Por um longo momento ficou ali parada ouvindo o toque do celular. Quando enfim atendeu, um sussurro rouco se fez ouvir: "não quer dançar comigo, Amanda?" Quando olhou para a janela, viu um homem de olhos fundos sorrindo para ela.
Então de um pulo Amanda levantou da cama e percebeu que tudo não passara de um sonho. Sua respiração estava ofegante, e ela não conseguia tirar aquela voz da cabeça. E nem a frase que ela dizia. Tentando esquecer aquele sonho que de agradável passou a assustador, ela foi tomar um banho quente. Enquanto tirava a roupa lembrou da voz e sentiu todos os pelos do corpo se eriçarem, como se ao mesmo tempo sentisse terror e excitação em ouvi-la. Colocou um cd pra tocar, a fim de tentar esquecer tudo aquilo e entrou na banheira. Mas a única música que conseguia ouvir era a frase que estava em sua cabeça: "não quer dançar comigo, Amanda?"


Imagem disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/69446907> e tirada por Beth Costa.

domingo, 17 de março de 2013

Pensando no fim



Àquele entusiasmo de antes
fica uma risada aqui e ali
FALSA

As verdades que sempre vinham 
tão livremente e sem medo.
Hoje escondem-se onde não
podemos encontrar.

Naquele dia que assistimos ao fim
nem sequer pensei que ele estava
chegando assim
tão perto de você e de mim
tão perto entre você    e     mim

você





eu.



Fonte da imagem: http://www.lufavero.com.br/2011/pontodevista.php

domingo, 10 de março de 2013

Ela e João


João estava na fila do supermercado, um dia normal como qualquer outro, esperando a sua vez de passar as compras. Havia tantas filas por ali, a sua parecia até insignificante. Em uma dessas outras filas, ali perto da dele, uma garota estava parada esperando também a sua vez. João não tinha reparado, mas ela estava ali há um tempo. Encantou-se com a garota: cabelos pretos, pele branca, corpo magro, e um livro na mão. Aquele tipo de garota que não é fabricada aos montes junto com as outras. Não, ela não era como as outras. As outras eram cheias demais de menos. Ela não tinha os grandes seios que têm as outras, nem mesmo as pernas grossas ou bundão. Não era ali que estava sua beleza. A beleza dela estava nos olhos castanhos, nos seios pequenos e numa cabeça ativa, nos seus óculos de quem lia muito, na sua cara de quem gostava de café. Falando nisso, João reparou no pacote de café que a garota levava na cestinha. Mais dois passos na fila. Mas ele não foi o único a reparar em alguém. Dando mais dois passos na sua fila, ela olhava para o rapaz que estava ali, há algumas filas da sua. O rapaz com cabelos emaranhados e pele parda, com a barba por fazer, que vez ou outra deixava um sorriso se formar em sua boca e também reparou nos gibis do Homem-Aranha que ele levava numa mão, enquanto a outra carregava uma lata de leite em pó. Isso a fez dar uma risadinha. Um cara já com barba e comprando leite em pó. João já estava passando suas compras, quando deu mais uma olhada pra garota, talvez fosse a última vez que a visse. Queria guardá-la bem na memória. Percebeu que ela também o olhava, com seus pequenos olhos castanhos. Por um momento pareceu estar dentro de algum conto ou coisa do tipo, e que logo depois eles iriam pegar o mesmo ônibus e no fim descobrir que moram no mesmo prédio. Mas não foi o que aconteceu. João pegou suas compras e saiu do supermercado, enquanto ela esperava ainda sua vez de passar as compras, talvez ainda pensando se ele era pra ele ou para outra pessoa aquela lata de leite em pó.

Fonte da imagem: https://apenasvaidosa.wordpress.com